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terça-feira, janeiro 20, 2009

Intermitências do caminho

Em princípio, diga-se, porque ao homem perdido no nevoeiro imaginação foi o que pareceu não lhe ter faltado, haja vista a ligeireza com que tirou do nada, do não acontecido, os voluntários que deveriam ter ido salvá-lo. Felizmente para a sua credibilidade pública, o elefante é outra coisa. Grande, enorme, barrigudo, com uma voz de estarrecer aos menos timoratos e uma tromba como a não tem nenhum outro animal da criação, o elefante nunca poderia ser produto de uma imaginação, por muito fértil e dada ao risco que fosse. O elefante, simplesmente, ou existiria, ou não existiria. É portanto hora de ir visitá-lo, hora de lhe agradecer a energia com que usou a salvadora trombeta que deus lhe deu, se este sítio fosse o vale de josafá teriam ressuscitado os mortos, mas sendo apenas o que é, um pedaço bruto da terra portuguesa afogado pela névoa onde alguém, quem, esteve a ponto de morrer de frio e abandono, diremos, para não perder de todo a trabalhosa comparação em que nos metemos, que há ressurreições tão bem administradas que chega a ser possível executá-las antes do passamento do próprio sujeito. Foi como se o elefante tivesse pensado, Aquele pobre diabo vai morrer, vou ressuscitá-lo.
A Viagem do Elefante, José Saramago, escritor

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Nestor (para o Pe. Henrique)

YOU, COCHRANE, WHAT CITY SENT FOR HIM?

-- Tarentum, sir.

-- Very good. Well?

-- There was a battle, sir.

-- Very good. Where?

The boy's blank face asked the blank window.

Fabled by the daughters of memory. And yet it was in some way if not as memory fabled it. A phrase, then, of impatience, thud of Blake's wings of excess. I hear the ruin of all space, shattered glass and toppling masonry, and time one livid final flame. What's left us then?

-- I forgot the place, sir. 279 B.C.

-- Asculum, Stephen said, glancing at the name and date in the gorescarred book.

-- Yes, sir. And he said: Another victory like that and we are done for.

That phrase the world had remembered. A dull ease of the mind. From a hill above a corpsestrewn plain a general speaking to his officers, leaned upon his spear. Any general to any officers. They lend ear.

-- You, Armstrong, Stephen said. What was the end of Pyrrhus?

-- End of Pyrrhus, sir?

-- I know, sir. Ask me, sir, Comyn said.

-- Wait. You, Armstrong. Do you know anything about Pyrrhus?

A bag of figrolls lay snugly in Armstrong's satchel. He curled them between his palms at whiles and swallowed them softly. Crumbs adhered to the tissues of his lips. A sweetened boy's breath. Welloff people, proud that their eldest son was in the navy. Vico Road, Dalkey.

-- Pyrrhus, sir? Pyrrhus, a pier.

All laughed. Mirthless high malicious laughter. Armstrong looked round at his classmates, silly glee in profile. In a moment they will laugh more loudly, aware of my lack of rule and of the fees their papas pay.

-- Tell me now, Stephen said, poking the boy's shoulder with the book, what is a pier.

-- A pier, sir, Armstrong said. A thing out in the waves. A kind of bridge. Kingstown pier, sir.

Some laughed again: mirthless but with meaning. Two in the back bench whispered. Yes. They knew: had never learned nor ever been innocent. All. With envy he watched their faces. Edith, Ethel, Gerty, Lily. Their likes: their breaths, too, sweetened with tea and jam, their bracelets tittering in the struggle.

-- Kingstown pier, Stephen said. Yes, a disappointed bridge. The words troubled their gaze.

-- How, sir? Comyn asked. A bridge is across a river.

For Haines's chapbook. No-one here to hear. Tonight deftly amid wild drink and talk, to pierce the polished mail of his mind. What then? A jester at the court of his master, indulged and disesteemed, winning a clement master's praise. Why had they chosen all that part? Not wholly for the smooth caress. For them too history was a tale like any other too often heard, their land a pawnshop.

Had Pyrrhus not fallen by a beldam's hand in Argos or Julius Caesar not been knifed to death? They are not to be thought away. Time has branded them and fettered they are lodged in the room of the infinite possibilities they have ousted. But can those have been possible seeing that they never were? Or was that only possible which came to pass? Weave, weaver of the wind.

Ulisses, James Joyce, escritor

terça-feira, novembro 14, 2006

Crónica de una muerte anunciada

El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo. Había soñado que atravesaba un bosque de higuerones donde caía una llovizna tierna, y por un instante fue feliz en el sueño, pero al despertar se sintió por completo salpicado de cagada de pájaros. «Siempre soñaba con árboles», me dijo Plácida Linero, su madre, evocando 27 años después los pormenores de aquel lunes ingrato. «La semana anterior había soñado que iba solo en un avión de papel de estaño que volaba sin tropezar por entre los almendros», me dijo. Tenía una reputación muy bien ganada de interprete certera de los sueños ajenos, siempre que se los contaran en ayunas, pero no había advertido ningún augurio aciago en esos dos sueños de su hijo, ni en los otros sueños con árboles que él le había contado en las mañanas que precedieron a su muerte.

Crónica de una muerte anunciada, Gabriel García Márquez, escritor, Nobel

sexta-feira, novembro 10, 2006

Felicidade

- Não há nada de interessante para ver aqui. Se quiserem, há um grande templo na colina a oeste. É preciso subir um pouco e o caminho não esta bom.
- Óptimo, disse eu, viemos mesmo para subir!
- É verdade, acrescentou Fangfang de imediato, subir colinas não nos mete medo.
Então ele guiou-nos até à esquina da rua e mostrou-nos o velho templo cujas telhas amarelas cintilavam ao sol, no cume da colina em frente.
- Ah, óptimo, muito obrigado.
Mas ele olhava os sapatos de salto alto que Fangfang calçava. Disse:
- Vão ter de entrar na água para atravessar o ribeiro!
- É fundo? perguntei.
- Não ultrapassa os joelhos.
Olhei para Fangfang.
- Não há problema, eu consigo.
Fangfang não queria decepcionar-me.
Agradecemos e partimos na direcção indicada. Quando já estávamos na estrada poeirenta, não pude evitar olhar de relance para os sapatos novos de salto alto e atacadores finos que Fangfang trazia. Senti remorsos. Mas ela caminhava resolutamente, sempre em frente.
- És mesmo maluca! disse eu.
- Basta que esteja contigo.
Lembras-te, Fangfang? Disseste aquilo encostando-te a mim.
Caminhamos então até a margem do ribeiro. Nos campos dos dois lados crescia milho mais alto do que um homem.
Um pequeno trilho esgueirava-se no meio das folhas verdes.
Nem uma sombra humana por perto. Abracei Fangfang e beijei-a docemente. Hem, o que se passa? Bem, ela não quer que eu fale sobre isto, voltemos ao Templo da Perfeita Benevolência. Encontrava-se no flanco da colina, na margem oposta.
Por entre as telhas amarelo-doirado cresciam tufos de ervas daninhas que se distinguiam perfeitamente.
A água do rio estava límpida. Peguei com uma mão nos sapatos de salto alto de Fangfang e nas minhas sandálias de couro. Dei-lhe a outra mão. Ela segurava a saia levantada.
Descalços na água, avançávamos tacteando. Há muito tempo que não andava assim. Ate as pedras escorregadias do rio me picavam os pés.
- Estás a magoar-te? perguntei a Fangfang.
- Gosto disto, respondeste em voz baixa. Durante a nossa lua-de-mel, até a dor nos pés era uma sensação de felicidade. E todas as desgraças do mundo pareciam deslizar entre os nossos tornozelos. Parecia que tínhamos voltado à infância, de pés descalços como crianças a brincar na água.
Fangfang saltava de uma rocha para outra, eu mantinha a sua mão na minha e por momentos trauteava uma canção.
Uma vez atravessado o ribeiro corremos para a colina, a rir e a gritar. Fangfang feriu-se num pé e eu fiquei terrivelmente inquieto mas ela tranquilizou-me, não é nada, ponho os sapatos e fica tudo bem. Eu disse que a culpa era minha, mas ela disse que se eu estivesse contente, ela ficava satisfeita e que não se importava nada que lhe doesse o pé. Pronto, não digo mais nada, não faz mal. Como sois os nossos melhores amigos, como vos preocupastes connosco, temos de partilhar convosco a nossa felicidade...
O Templo, Gao Xingjian, escritor, Nobel

terça-feira, outubro 31, 2006

Onde Dondoca põe chifres morais no narrador

Há quem o tache de achacador, acusando-o de arrancar dinheiro da operosa colônia espanhola, verrinas tremendas contra os comerciantes que se recusam a anunciar em seu peri6dico. Creio não passar tudo isso de intrigas e balelas, prefiro não tomar conhecimento. Telhado gostara realmente do soneto, não economizou elogios. Comparou-me a Pethion-de Vilar e Artur de Sales, tocou-me com aquele espontâneo reconhecimento de minha veia poética. Comoveu-me e abracei-o, não e mau rapaz. Um pouco estourado apenas, maledicente por vezes, mas não será essa amargura resultado de suas dificuldades financeiras?
Recebe uma pensão miserável, mal pode viver. Negar-lhe talento e impossível e, se abandonasse a mania do futurismo, poderia escrever bons versos.
Expliquei-lhe minhas preocupações em torno da atitude assumida pela população de Periperi naquela primeira fase da luta entre o comandante e Chico Pacheco.
Não concordou Telêmaco com o meritíssimo, que entende aquela besta do comportamento dos homens Não eram, segundo ele, as provas concretas e materiais — diplomas, mapas, cronógrafo — a causa fundamental do apoio dado ao comandante. Não era assim tão simples e fácil, nem dão os homens tanto valor as provas materiais. O que os levava a sustentar o comandante, a enfrentar Chico Pacheco e sua língua temível, era a pr6pria necessidade, sentida por todos eles, despretensiosos e tímidos aposentados e retirados dos negócios, de sua ração de aventura, de sua parcela de heroísmo. Por mais circunspecto que seja um homem, mais comedida sua vida, há dentro dele uma chama, por vezes apenas uma fagulha, capaz de transformar-se num incêndio se a ocasião se apresenta. E ela que exige fugir da mediocridade, mesmo que seja nas palavras de uma história ouvida ou nas páginas de um livro lido, da chatice dos dias iguais, pequenos e mornos. Nas aventuras do comandante, em sua vida arriscada e temerária, encontravam os perigos por que não haviam passado, as lutas e batalhas que não haviam travado, os alucinados e pecaminosos amores que, ah!, não haviam vivido.
Os Velhos Marinheiros, Jorge Amado, escritor

domingo, outubro 29, 2006

De como o narrador, com certa experiência anterior e agradável, dispõe-se a retirar a verdade do fundo do poço

Meu desejo, meu único desejo, acreditem!, é ser objetivo e sereno. Buscar a verdade em meio à polêmica, desenterrá-la do passado, sem tomar partido, arrancando das versões mais diferentes todos os véus da fantasia capazes de encobrir, mesmo em parte, a nudez da verdade. Se bem eu tenha tido ocasião de constatar em carne própria, ou melhor na carne doirada de Dondoca, nem sempre ser mais sedutora a completa nudez do que aquela que se mostra e se esconde sob um lençol ou um trapo qualquer a ocultar um seio, um pedaço de perna, a curva de uma anca. Mas a verdade, afinal!, não é para deitar com ela numa cama que a buscamos com tanta teimosia e desespero por esse mundo afora.

Os Velhos Marinheiros, Jorge Amado, Escritor

domingo, outubro 22, 2006

Il Cielo In Una Stanza

Quando sei qui con me
Questa stanza non ha piu pareti

Ma alberi, alberi infiniti
E quando tu sei vicino a me
Questo soffitto, viola, no
Non esiste più, e vedo il cielo sopra a noi
Che restiamo quì, abbandonati come se
Non ci fosse più niente più niente al mondo,
Suona l'armonica, mi sembra un organo
Che canta per te e per me
Su nell'immensità del cielo
E per te e per me.
mmmhhhhhhhh
Et pour toi, et pour moi.
mmmhhhhhhhh

Carla Bruni, música e modelo

Expectativa

O engenheiro Boréus de Borg dava quase todos os dias uma volta até ao embarcadouro para ir esperar a chegada do vapor, o que não tinha nada de estranho, porque da sua casa ao cais era um salto – bastava-lhe atravessar a sua bela mata de pinheiros. E depois, havia sempre probabilidades de o barco trazer uma ou outra pessoa com quem ele pudesse trocar algumas palavras, para quebrar a monotonia da sua vida aldeã.
Mesmo na orla do parque, onde o caminho descia muito a pique até ao pontão, havia algumas grandes pedras nuas que afloravam do chão e as pessoas que vinham de longe muitas vezes se sentavam ali.
No embarcadouro de Borg havia sempre muita gente esperando o vapor, nunca se sabia ao certo a hora da chegada. Era raro que fosse antes do meio-dia, mas não convinha fiar-se muito nisso: podia aparecer a partir das 11 horas. Também não era impossível que se fizesse esperar até a 1 ou 2, mas as pessoas prudentes dirigiam-se para o cais logo às 10 horas, e as vezes passavam lá toda a manha.
Da janela da sua salinha em Borg, o engenheiro Boréus desfrutava uma bela vista sobre o Loeven. Via o barco assomar ao longe, contornando os cabos, e só se dirigia para o embarcadouro a hora conveniente. For conseguinte, nunca precisara de se instalar nas grandes pedras, mas, ao passar, deitava sempre uma olhadela aos que lá estavam sentados.
Ora naquele Verão não pudera deixar de notar um homenzinho de ar afável e bondoso que, dia após dia, esperava a chegada do vapor.
Mantinha-se imóvel e indiferente até que o navio aparecia. Nesse momento levantava-se num pulo, e com o rosto resplandecente de alegria, descia a correr a encosta e ia postar-se mesmo na borda do pontão, como se estivesse absolutamente certo de ir receber alguém. Mas nunca o barco lhe trazia fosse quem fosse. Depois da largada, lá ficava tão só como antes.
Então a alegria desaparecia-lhe do rosto e, quando fazia o caminho do regresso, parecia tão velho e tão cansado que quem o visse poderia recear que lhe faltassem as forcas para subir o atalho.
O engenheiro Boréus não conhecia aquele homem. Mas, certo dia de Verão, vendo-o instalado no lugar habitual, com os olhos fitos no lago, meteu conversa com ele. Soube assim que o homem esperava nesse dia o regresso da filha, ausente em Estocolmo.
— Mas tem a certeza de que ela vem hoje? — perguntou o engenheiro. — Há pelo menos dois meses que o vejo vir aqui espera-la todos os dias... Com certeza que a sua filha o informou mal.
— Oh! Não — respondeu o homem, sempre com o mesmo ar brando e pacífico. — Não me informou mal, com certeza que não.
— Mas, com mil macacos! — exclamou o engenheiro, que se irritava com facilidade. — Que quer você dizer? Veio aqui esperá-la para nada, dias a fio, e acha que ela não lhe deu uma informação errada?
— Não — disse o homenzinho, levantando para Boréus o olhar doce dos seus olhos de um azul límpido. — Não fez isso, nem podia, porque não me mandou informação nenhuma.
— Então não recebeu carta dela? — perguntou o engenheiro.
— Não, não. Não temos carta desde o dia um de Outubro.
— Mas então porque e que vem aqui? — interrompeu Boréus, espantado. — Fica para ai as manhas inteiras sem fazer nada... Como e que pode abandonar assim o trabalho?
— Sim, não e lá muito bonito da minha parte — respondeu o homem com um sorriso angélico. — Mas tudo se vai arranjando...
— Como é que se pode ser assim tão burro! — gritou Boréus, indignado. — Põe-se para ai a espera de um navio qualquer, não é? Sabe que mais? O que você está é a pedir manicómio!
O homem não ripostou. Com as mãos juntas em volta dos joelhos, ficou impassível. O sorriso continuava a pairar-lhe nos lábios, acentuando-se até cada vez mais.
O engenheiro Boréus encolheu os ombros e afastou-se. Mas, chegando a meia encosta, mudou de ideias e voltou para trás.
A amargura que em geral marcava as suas feições severas cedera lugar a uma expressão bondosa. Estendeu a mão ao homem.
— Não quero deixar de lhe apertar a mão — disse. — Até aqui julgava ser eu cá no sitio o homem que melhor conhecia a saudade. Mas agora vejo que o senhor me bate aos pontos.
O Imperador de Portugal, Selma Lagerlöf, Prémio Nobel

sexta-feira, outubro 06, 2006

Coisas Belas

On dit que le destin se moque bien de nous,
Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout,
Paraît que le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou.