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sexta-feira, janeiro 27, 2012

Toda a comunidade dos judeus

"-Disse-lhe que, para mim, era saudável. O tio Vili deu-me logo razão, e o tio Lajos advertiu que cumpre aceitar o que Deus nos reservou; com isto, calaram-se. Então, o tio Lajos chamou-me à parte e falou-me seriamente: entre outras coisas, advertiu que nunca me esquecesse não ser o meu posto de trabalho exclusivamente meu, mas que represento «toda a comunidade dos judeus», pelo que devo vigiar o meu comportamento, o qual acabará por ser julgado atendendo àquilo que nós, que todos nós, somos.”
Sem destino, Imre Kertész, escritor, sobrevivente ao Holocausto

domingo, maio 09, 2010

Triste Beleza (Vuela, Gavilán!)

Nunca pensei que o Fernando se tornasse meu amigo. Mas foi isso que aconteceu. Porque permaneceu ao meu lado quando aconteceu o que aconteceu à minha mãe, e porque foi o único que, nos meses seguintes, se interessou por mim, ou seja, por aquilo que eu pensava. E julgo que percebeu tudo. Inclusivamente, o que ainda hoje eu próprio não consigo perceber. Nunca tentou dar-me uma resposta, limitou-se a oferecer-me um livro: o meu primeiro livro, aquele que mudou a minha vida para sempre.

Foi na primeira segunda-feira de Março, um dia antes do começo das aulas (nesse ano, por causa de uma praga de baratas, as aulas começaram numa terça). Eu estava na sala. Comia um pedaço de bolo e folheava uma revista de livros aos quadradinhos quando ouvi o barulho: como se alguém tivesse dado uma pancada na parede. Virei a cabeça e vi a porta de correr da casa de banho a entreabrir-se. E a mão: a mão da minha mãe surgiu rente ao chão. Fiquei de pedra, foi um instante apenas, mas lembro-me bem. Ouvi um som fraco, um queixume, e, então, aproximei-me. Estava assustado e mal conseguia andar. Corri para a porta e vi a minha mãe caída: o cabelo louro em desalinho, cheio de sangue, tanto sangue que quase vomitei. No início, não consegui perceber onde estava a cara, onde a nuca. Recordo-me do cabelo despenteado sobre os ombros nus; que estava de barriga para baixo, apenas envolta numa toalha, com a cabeça de lado, os braços estendidos e as palmas viradas para cima. Outro queixume uma sorte de i fraco que emitia ao respirar. Agachei-me e peguei-lhe na mão. A mão da minha mãe, outrora sempre tão morna, estava agora gelada. Lentamente, fechou-se sobre a minha, e a sua voz, quase imperceptível, balbuciou qualquer coisa que eu entendi ser: «à avó, não». Levantei-me e desatei a correr, quase dei cabo de mim ao chocar contra uma cadeira, atravessei o pátio, saí à rua e cheguei à porta da oficina.
Estava fechada à chave. O Alejandro e o Coco tinham deixado um aviso que dizia: Regressamos daqui a uma hora. Deu-me uma fúria e preguei um pontapé na porta. Reparei que a dona da casa do lado estava a olhar para mim, oculta atrás da cortina da janela. Levantei a mão e, antes de ter tempo de lhe fazer outro sinal, a mulher enfiou-se dentro de casa. Soube que a única hipótese que me restava era acordar a minha avó. Só de pensar na sua cara de velório antecipado, revolveram-se-me as entranhas. Atravessei a rua a correr e foi aí que, completamente cego, esbarrei contra o Fernando. Perguntou-me se tinha acontecido alguma coisa e contei-lhe.

Entrámos, passámos a zona dos meus tios e acedemos à minha casa. O Fernando despiu o casaco e foi ver a minha mãe. Arregaçou as mangas da camisa e soube logo o que tinha de fazer. Pegou na minha mãe por baixo dos braços e sentou-a no chão. Encharcou uma toalha e o seu próprio lenço com água no lavatório, agachou-se e pôs-lhe a toalha molhada, embrulhada num rolo, atrás da nuca. Fazia tudo com muito cuidado e, diga-se em abono da verdade, a mariquice não se lhe notou nem um pouco. Melhor dizendo: não foi nada maricas. Aproximei-me e via a cara da minha mãe, estava pálida e tinha um golpe na sobrancelha esquerda, seguramente provocado pela queda. Já não estava a sangrar. Pensei que já tinha perdido o sangue todo e tive medo. Havia um monte de comprimidos cor-de-rosa velho amontoados e humedecidos no fundo do lavatório. Vai morrer, pensei, enquanto o Fernando lhe amparava a cabeça e lhe molhava a cara com o lenço. Na verdade, o pensamento chegou-me como uma revelação, ou como uma voz pessimista que me dizia que a minha mãe já estava morta. Disse-o ao Fernando.

— O que é que estás para aí a dizer? — respondeu. — Não vai acontecer nada à tua mãe. — Anotou um número num papelinho e deu-me um molho de chaves. — Vai a minha casa, telefona ao médico da minha parte e pede-lhe que venha depressa. É meu amigo. Sabes usar um telefone?
Respondi-lhe que também sabia sacudir a picha sozinho, mas arrependi-me logo a seguir: o Fernando estava a ajudar-me, muito preocupado e muito seguro de como lidar com a situação. Achei que era injusto ter-lhe respondido daquela maneira. A casa da mãe dele era das poucas que tinha telefone naquela época, e a pergunta do Fernando era lógica ou, pelo menos, bem-intencionada. No entanto, eu estava furioso. Olhava para a minha mãe esforçando-me por não a odiar com toda a minha alma. Subitamente, revelava-se-me como uma pessoa falsa. Sempre nos tinha dito que gostava muito de nós, mas quando se tentou matar nem sequer se lembrou de nós. Apeteceu-me que morresse ali mesmo, já que o desejava assim tanto, e disse-o ao Fernando. Ele, longe de me recriminar, repetiu-me que tudo correria bem, que não ia acontecer nada à minha mãe e que, mais tarde, se eu quisesse, podíamos falar com mais calma.

Corri pelo corredor até à rua com o cartão numa mão e a chave noutra. E foi então que aconteceu: mal um dos meus pés tocou na rua, o tempo deteve-se. E deteve-se mesmo. Fiquei congelado, os pés inertes no limiar da porta de minha casa, qual soldadinho de plástico em acção de guerra. Porém, não me sentia colado ao chão ou com as pernas metidas num bidão de alcatrão, ou uma coisa do género, não, nada disso. Nem sequer sentia os pés, as mãos ou a cabeça. A rua Magán parecia outra rua, distante, com um vento que sentia soprar de maneira irreal. Um vizinho passou diante de mim e julguei que ficasse admirado ao ver a estátua viva do filho do bobinador em posição de sair de casa, mas, em vez disso, ignorou-me completamente. Pensei que, se conseguisse cumprimentá-lo, me salvaria, mas não fui capaz. Tinha a cabeça a funcionar, e a mil à hora, mas não conseguia transformar os meus pensamentos em acções. Então, como se se tivessem virado contra mim todos os desejos que, instantes antes, tivera em relação à minha mãe, senti-me morrer, agrilhoado ao limiar da minha casa, sem forças para respirar.
Creio que a apenas um segundo da loucura fui salvo pelo Fernando e, a partir desse momento, ele converteu-se no meu anjo da guarda. Dali para a frente, nunca mais o voltei a chamar paneleiro, nem sequer à frente dos mais velhos.
— O que é que ainda estás aqui a fazer? — perguntou-me, e, pouco a pouco, senti os meus músculos a começarem a mexer-se — A tua mãe já está melhor, deixei-a com a tua avó, e vim ver se já tinhas chamado o médico.

sexta-feira, maio 07, 2010

Los Pibes

A nós chamavam-nos Los Pibes, Os Putos, e costumávamos parar na esquina das ruas Magán e Rivadavia: mesmo no centro do bairro. Era nessa esquina que ficava a casa do Armando, um velho que todas as tardes tocava bandoneón, oculto na penumbra da sua garagem e com o portão entreaberto, para que a música se pudesse ouvir na rua. O som do bandoneón de Armando e a sombra dos choupos gigantes do passeio faziam daquela esquina o lugar perfeito para passar as tardes. A padaria, o quartel dos bombeiros, a carpintaria do Rubén e a fábrica de extintores Celis também ficavam nas ruas Magán e Rivadavia, uma diante da outra ocupando as esquinas restantes. O café do Uruguaio ficava um pouco além do cemitério, e o clube recreativo e desportivo Brisas del Plata, depois do café. O estádio do Arse - o nosso clube - ficava nos arredores do bairro, perto da ribeira, mas a caminho da costa, onde havia outra Villas muito mais ricas que a Mariel e a Corina, e onde parava o pior dos nossos bandos inimigos: Los del Otro Lado.
A origem da tristeza, Pablo Ramos, escritor

terça-feira, dezembro 01, 2009

Elementar, Watson!

Enquanto falávamos, dobrámos para uma ruela estreita. Por uma portinha lateral, chegámos a uma ala do grande hospital. O cenário era-me familiar e eu não precisava de guia para subir a fria escada de pedra e percorrer o longo corredor de paredes caiadas e portas cor de castanha. Antes do seu final, uma passagem em arco dava acesso a outras direcções e por ela chegámos ao laboratório químico.

O lugar, amplo e imponente, estava entulhado com um sem-número de frascos. Mesas baixas e largas, espalhadas pelo salão estavam cobertas por retortas, tubos de ensaios e pequenos bicos de Bunsen com trémulas chamas azuis. Via-se apenas um estudante no laboratório. Estava curvado sobre uma mesa distante e absorvido no seu trabalho. Ao ouvir nossos passos, olhou em torno, erguendo-se com um grito de satisfação.

- Descobri! Descobri! - dizia a meu companheiro, enquanto corria a nosso encontro com um tubo de ensaio nas mãos. - Descobri um reagente que é precipitado pela hemoglobina e por nada mais!

Se tivesse descoberto uma mina de ouro, não poderia estar mais feliz.

- Dr. Watson, Sr. Sherlock Holmes - disse Stamford, apresentando-nos.

- Como vai? - disse cordialmente, apertando minha mão com uma força que eu não esperava que ele tivesse. - Vejo que esteve no Afeganistão.

- Como é que sabe? - perguntei, atónito.

- Não importa - respondeu, rindo para si mesmo. - No momento, o que interessa é a hemoglobina.

Um estudo em vermelho, Arthur Conan Doyle, escritor, no 122º Aniversário da primeira publicação de um romance com Sherlock Holmes

quinta-feira, novembro 05, 2009

É belo! É belo!

Para a criança, o mesmo é que dizer para o sonhador, o céu, quer vazio e imane como o chapéu de palha dum espantalho de pardais, quer pejado de enormidades beatíficas ou majestosas, queda sempre céu. Assente em sólidas colunas de cristal não há nortada que o deite a terra. A criança anda nele como em levitação. Repete-se o milagre de Jesus por cima das águas de Tiberíade.

Pela capacidade da minha alma para o sonho, ser-me-ia difícil fixar a idade cronológica. Date-se que a essa altura professava eu egoistamente a doutrina de Rómulo quanto a compartilhar com Remo o berço real. Começava por esse tempo a desaparecer de casa à socapa para ir comer os feijões-galegos do Tiago sapateiro, irmão do nosso Monge. Quanto a craveira, ultrapassava as botas de montar de meu pai, que eram de cano rígido, posta uma em cima da outra. Recordo-me ainda que me sentia com direito a santantoninho da cantareira, e que provavelmente o meu amor pelas pessoas não passava dum revérbero desse sentimento. Mas que importava isso? Como eu queria, para não ir mais longe, aquela tia Custódia que inventava, se não havia trazido do convento, arremedilhos e sirventes, tais o do Gato, nada abstracto, atrás do rato, o Tiro-Lico-Tico, e outros e outros, para meu desenfado?!

Que minha tia era feia…? Não, no mundo todo não existia mulher mais bonita que a tia Custódia. De facto, a sua cara sobre o redondo, pontuada das covas das bexigas, lembrava a criva dum regador; a vérmina roera aqui a aresta da narina, espojara-se além na comissura do lábio; passeara a sua baba corrosiva no queixo e por todo o semblante tecera o véu de grossa estopa sob que desaparece a finura e a musicalidade dos traços, que formam o carácter; o palmo de fisionomia era tal qual uma chapeirada de areia depois dum chuvisco. Além disso, desleixava-se do natural; cabelos ruços, que nem enfarinhados, trazia-os a pobrezinha à matroca, quer emaçarocados sobre as orelhas, quer em tranças esfiapadas que um lenço de merino escuro, quase de viúva, mal escondia. Mas era isto fealdade?

Se diziam, para me experimentar, que a tia Custódia era feia, eu batia o pé indignado:

– É bonita! É bonita!

Não havia nada para me acirrar, pondo-me fora de mim, raivoso e em lágrimas, como sustentarem que era feia.

– Tem razão o meu filho – apoiava minha mãe com voz triste, mas deleitada, dirigindo-se aos que, para me gozar, recorriam a esta forma de arrelia. – Minha irmã era bonita, muito bonita. Ali onde a vêem com o rosto picado das bexigas, poucas lhe ganhavam em formosura. Formosura e agrados, isso que hoje chamam simpatia. Pode mesmo dizer-se que por baixo daquele sudário espreitam feições esbeltas e bem-proporcionadas. Senão reparem. Um tantinho lua cheia?... Mas é um tipo e há quem aprecie, então não há?! Estou a vê-la como entrou para o Recolhimento, rechonchudinha, muito branca, tez fina, e os meus olhos porfiam em vê-la assim e não doutro modo. Sabem todos, pois não sabem, que minha irmã Custódia foi educada no Recolhimento de Freixinho...?

– Conte, mãezinha, conte – acudia eu atirando-me ao seu regaço.

– Ó filho, estás farto de ouvir!

– Conte, mãezinha, conte...


Cinco Réis de Gente, Aquilino Ribeiro, escritor

quarta-feira, abril 15, 2009

O príncipe árabe

"[...] pocas cosas marcan tanto a un lector como el primer libro que realmente se abre camino hasta su corazón. Aquellas primeras imágenes, el eco de esas palabras que creemos haber dejado atrás, nos acompañan toda la vida y esculpen un palacio en nuestra memoria al que, tarde o temprano – no importa cuántos libros leamos, cuántos mundos descubramos, cuánto aprendamos u olvidemos–, vamos a regresar."
La sombra del viento, Carlos Ruiz Zafón, escritor

terça-feira, outubro 23, 2007

No te Olvido

Desde o princípio, além da sua beleza, Faulques ficou fascina­do pela forma como Olvido se comportava; pela sua forma de con­versar, de inclinar a cabeça depois de uma frase ou de ouvir com ar cúmplice como se nunca acreditasse totalmente em nada, pelos seus modos de menina bem-educada e um pouco altiva, pela sua cruel­dade suave – era demasiado jovem e demasiado bonita, para co­nhecer a compaixão desprovida de calculismo – temperada com um humor fulgurante e uma cortesia travessa. Era também, compro­vou Faulques, uma mulher que não passava despercebida embora se empenhasse nisso: os homens cediam-lhe a passagem à entrada ou abriam-lhe as portas dos automóveis, os empregados de mesa acorriam a um simples olhar, os maîtres dos restaurantes reserva­vam-lhe a melhor mesa disponível e os gerentes de hotel o quarto com a melhor vista. Olvido correspondia a tudo isto com aquele seu sorriso peculiar, simultaneamente irónico e afectuoso, com o humor vivo e culto das suas observações, com a faculdade inesgotá­vel de se colocar, sem abdicar de nada, à altura de qualquer interlo­cutor. Até as gorjetas nos restaurantes e hotéis eram entregues como quem partilha uma piada em voz baixa. E quando se ria às gargalhadas – fazia-o como um rapazinho travesso e cúmplice –, qualquer homem se deixaria matar por ela ou pelo seu riso. Era muito boa em tudo isso. As pessoas educadas, dizia, seduzem os outros recorrendo a uma coisa muito simples: falam sempre daqui­lo que lhes interessa. Ela podia seduzir com palavras e silêncios em cinco línguas, imitava vozes e gestos alheios com uma facilidade espantosa e tinha uma memória extraordinária para os pormenores. Faulques ouviu-a chamar pelo nome dos porteiros, empregados de mesa e taxistas. Adoptava as gírias, os sotaques, e dizia palavrões com um elegante desembaraço – o seu sangue italiano – quando estava furiosa. Tinha também uma habilidade espontânea para neu­tralizar o lado canalha dos subalternos: o ressentimento oculto sob o servilismo daqueles que serviam os outros de má vontade, so­nhando com revoluções decapitadoras e o ressentimento daqueles que assumiam o seu papel com uma dignidade resignada. As mu­lheres invejavam-na fraternalmente e os homens adoptavam-na à primeira vista de olhos, pondo-se do seu lado. Caso Olvido fosse um homem de princípio de século, Faulques conseguia imaginá-la sem esforço tomando o pequeno-almoço, pela manhã, numa cho­colataria, vestida de casaca, junto dos criados da casa onde, na noite anterior, estivera como convidada do jantar ou de um baile.

Naquela noite do primeiro dia, no México DF, também ele sucumbiu a esse encanto. Apesar das suas próprias reservas, da sua biografia, das suas ideias sobre o mundo, deu consigo com os pul­sos apoiados no rebordo de uma mesa bem localizada de um restau­rante de San Ángel – ele vestia casaco azul-escuro e calças de ganga, ela um vestido cor de malva tão cingido que parecia pintado sobre as suas ancas e pernas longuíssimas, o maître dizendo boa-noite, há quanto tempo, como está o seu pai, menina Ferrara – olhando para os olhos cor de uva idênticos aos daquela Nahui Ollin cuja his­tória ela lhe contara à tarde. Olhava-os com tão inconsciente fixação que a mulher baixou um pouco o rosto e, observando o homem por entre o cabelo castanho-claro que lhe caía sobre o rosto, pôs-se séria um instante, apenas o necessário para dizer temos pouco tem­po, Faulques, sem especificar se se referia àquela noite ou ao resto das suas vidas. Chamou-o assim, pronunciando pela primeira vez não o seu nome, mas o apelido. E sempre o chamaria dessa forma, até ao fim. Três anos. Mil e cinquenta dias confirmando a propor­cionalidade directa de tudo aquilo ao produto do desejo de dois corpos – foi ela quem parafraseou Newton a dada altura, enquan­to se abraçavam sob o duche de um hotel de Atenas –, e a inversa proporcionalidade ao quadrado da distância que os separa. Três anos intensos e viajantes, iniciados naquela noite em que acabaram, tardíssimo, sozinhos num bar da plaza Garibaldi, bebendo até pas­sar a hora de fechar, falando de pintura e de fotografia enquanto os empregados punham as cadeiras sobre as mesas e começavam a varrer o chão; e quando Faulques olhou para o relógio, ela disse que se admirava que um fotógrafo de guerra não fosse capaz de beber impassível sob o fogo dos olhares dos empregados impacientes. Era única a colocar aqui e ali pensamentos alheios em jeito de reflexões espontâneas ou sentenças próprias, engenhosa em ultrapassar obstáculos incorporando-os ao plano original, habilidosa a mentir levando a acreditar que mentia aberta e deliberadamente. Adorava as coisas falsas, coleccionava-as por toda a parte e depois abandonava-as em cestos de lixo de hotéis, em aeroportos, oferecia-as a empregadas, telefonistas e hospedeiras: falso vidro de Murano, falsas rendas de Bruxelas, falsos bronzes antigos, falsas miniaturas do século XVIII compradas em mercados de rua. Andava à vontade entre tudo aquilo, tornando-o valioso com uma palavra ou com um olhar. Era Olvido quem conferia importância às coisas e às pessoas com quem se relacionava, talvez porque possuía a segurança perfeita que só algumas mulheres têm quando o mundo é o seu excitante campo de batalha e os homens um complemento útil mas prescindível.

De qualquer maneira, ela tinha razão. Três anos era pouco tempo, embora nenhum dos dois pudesse imaginá-lo. Nessa primeira noite no México DF, Faulques, que por essa altura já olhava para o mundo à luz dos seus paradoxos e convergências, pensou que o seu nome era Olvido; e soube de chofre, com a precisão fugaz de uma fotografia captada num instante, que ela era a única coisa que nunca conseguiria esquecer.

Agora, pelas janelas abertas da torre chegava o rumor da marulhada crescente na base da falésia, enquanto o pintor de batalhas olhava para o vulcão na parede. Nesse momento, o álcool ingerido, a penumbra ou um efeito de luz do candeeiro a gás fizeram uma sombra atravessar-se diante dos seus olhos. Trémulo, procurou o lugar do vasto mural onde aquela sombra fora esconder-se. Passado um instante abanou a cabeça. É escura, murmurou recordando, a casa onde agora vives.

O Pintor de Batalhas, Arturo Pérez Reverte, escritor