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domingo, setembro 20, 2015

A Gaivota


NINA: O que está a escrever?
TRIGORIN: São só uns apontamentos... Ocorreu-me agora mesmo um tema... (Mete o bloco de notas na algibeira) Um tema para um conto. Uma rapariga que passou a vida à beira de um lago. Assim, como você. Essa rapariga ama o lago, como uma gaivota. Um homem passa, olha para ela, e como não tem mais nada que fazer, destrói-a - como aquela gaivota ali.
A Gaivota, Ato II, Anton Pavlovitch Tchekov (Анто́н Па́влович Че́хов), dramaturgo, escritor

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Querendo-te vou tentando encontrar-te


Você não me ensinou a te esquecer, Caetano Veloso (Caetano Emanuel Viana Teles Veloso), músico, cantor

quarta-feira, novembro 28, 2012

Al alba

Si te dijera, amor mío,
que temo a la madrugada,
no sé qué estrellas son éstas
que hieren como amenazas
ni sé qué sangra la luna
al filo de su guadaña.

Presiento que tras la noche
vendrá la noche más larga,
quiero que no me abandones,
amor mío, al alba,
al alba, al alba.

Los hijos que no tuvimos
se esconden en las cloacas,
comen las últimas flores,
parece que adivinaran
que el día que se avecina
viene con hambre atrasada.

Presiento que tras la noche
vendrá la noche más larga,
quiero que no me abandones,
amor mío, al alba,
al alba, al alba.

Miles de buitres callados
van extendiendo sus alas,
no te destroza, amor mío,
esta silenciosa danza,
maldito baile de muertos,
pólvora de la mañana.

Presiento que tras la noche
vendrá la noche más larga,
quiero que no me abandones,
amor mío, al alba,
al alba, al alba.


Al alba, Luis Eduardo Aute Gutiérrez, cantautor

quarta-feira, julho 04, 2012

O amor é oxigénio

Elephant Love (do filme Moulin Rouge!), Nicole Mary Kidman e Ewan Gordon McGregor, atores

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Toda a comunidade dos judeus

"-Disse-lhe que, para mim, era saudável. O tio Vili deu-me logo razão, e o tio Lajos advertiu que cumpre aceitar o que Deus nos reservou; com isto, calaram-se. Então, o tio Lajos chamou-me à parte e falou-me seriamente: entre outras coisas, advertiu que nunca me esquecesse não ser o meu posto de trabalho exclusivamente meu, mas que represento «toda a comunidade dos judeus», pelo que devo vigiar o meu comportamento, o qual acabará por ser julgado atendendo àquilo que nós, que todos nós, somos.”
Sem destino, Imre Kertész, escritor, sobrevivente ao Holocausto

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Not have strew'd thy grave

Sweets to the sweet, farewell!
I hop'd thou shouldst have been my Hamlet's wife:
I thought thy bride-bed to have deck'd, sweet maid,
And not have strew'd thy grave.

Queen Gertrude, Hamlet, William Shakespeare, dramaturgo 

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Somam-se-me dias.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

Aniversário, Álvaro de Campos, poeta

domingo, novembro 27, 2011

Que a minha alma tem

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
Vaga, no Azul Amplo Solta, Fernando António Nogueira Pessoa, poeta

domingo, setembro 26, 2010

domingo, maio 09, 2010

Triste Beleza (Vuela, Gavilán!)

Nunca pensei que o Fernando se tornasse meu amigo. Mas foi isso que aconteceu. Porque permaneceu ao meu lado quando aconteceu o que aconteceu à minha mãe, e porque foi o único que, nos meses seguintes, se interessou por mim, ou seja, por aquilo que eu pensava. E julgo que percebeu tudo. Inclusivamente, o que ainda hoje eu próprio não consigo perceber. Nunca tentou dar-me uma resposta, limitou-se a oferecer-me um livro: o meu primeiro livro, aquele que mudou a minha vida para sempre.

Foi na primeira segunda-feira de Março, um dia antes do começo das aulas (nesse ano, por causa de uma praga de baratas, as aulas começaram numa terça). Eu estava na sala. Comia um pedaço de bolo e folheava uma revista de livros aos quadradinhos quando ouvi o barulho: como se alguém tivesse dado uma pancada na parede. Virei a cabeça e vi a porta de correr da casa de banho a entreabrir-se. E a mão: a mão da minha mãe surgiu rente ao chão. Fiquei de pedra, foi um instante apenas, mas lembro-me bem. Ouvi um som fraco, um queixume, e, então, aproximei-me. Estava assustado e mal conseguia andar. Corri para a porta e vi a minha mãe caída: o cabelo louro em desalinho, cheio de sangue, tanto sangue que quase vomitei. No início, não consegui perceber onde estava a cara, onde a nuca. Recordo-me do cabelo despenteado sobre os ombros nus; que estava de barriga para baixo, apenas envolta numa toalha, com a cabeça de lado, os braços estendidos e as palmas viradas para cima. Outro queixume uma sorte de i fraco que emitia ao respirar. Agachei-me e peguei-lhe na mão. A mão da minha mãe, outrora sempre tão morna, estava agora gelada. Lentamente, fechou-se sobre a minha, e a sua voz, quase imperceptível, balbuciou qualquer coisa que eu entendi ser: «à avó, não». Levantei-me e desatei a correr, quase dei cabo de mim ao chocar contra uma cadeira, atravessei o pátio, saí à rua e cheguei à porta da oficina.
Estava fechada à chave. O Alejandro e o Coco tinham deixado um aviso que dizia: Regressamos daqui a uma hora. Deu-me uma fúria e preguei um pontapé na porta. Reparei que a dona da casa do lado estava a olhar para mim, oculta atrás da cortina da janela. Levantei a mão e, antes de ter tempo de lhe fazer outro sinal, a mulher enfiou-se dentro de casa. Soube que a única hipótese que me restava era acordar a minha avó. Só de pensar na sua cara de velório antecipado, revolveram-se-me as entranhas. Atravessei a rua a correr e foi aí que, completamente cego, esbarrei contra o Fernando. Perguntou-me se tinha acontecido alguma coisa e contei-lhe.

Entrámos, passámos a zona dos meus tios e acedemos à minha casa. O Fernando despiu o casaco e foi ver a minha mãe. Arregaçou as mangas da camisa e soube logo o que tinha de fazer. Pegou na minha mãe por baixo dos braços e sentou-a no chão. Encharcou uma toalha e o seu próprio lenço com água no lavatório, agachou-se e pôs-lhe a toalha molhada, embrulhada num rolo, atrás da nuca. Fazia tudo com muito cuidado e, diga-se em abono da verdade, a mariquice não se lhe notou nem um pouco. Melhor dizendo: não foi nada maricas. Aproximei-me e via a cara da minha mãe, estava pálida e tinha um golpe na sobrancelha esquerda, seguramente provocado pela queda. Já não estava a sangrar. Pensei que já tinha perdido o sangue todo e tive medo. Havia um monte de comprimidos cor-de-rosa velho amontoados e humedecidos no fundo do lavatório. Vai morrer, pensei, enquanto o Fernando lhe amparava a cabeça e lhe molhava a cara com o lenço. Na verdade, o pensamento chegou-me como uma revelação, ou como uma voz pessimista que me dizia que a minha mãe já estava morta. Disse-o ao Fernando.

— O que é que estás para aí a dizer? — respondeu. — Não vai acontecer nada à tua mãe. — Anotou um número num papelinho e deu-me um molho de chaves. — Vai a minha casa, telefona ao médico da minha parte e pede-lhe que venha depressa. É meu amigo. Sabes usar um telefone?
Respondi-lhe que também sabia sacudir a picha sozinho, mas arrependi-me logo a seguir: o Fernando estava a ajudar-me, muito preocupado e muito seguro de como lidar com a situação. Achei que era injusto ter-lhe respondido daquela maneira. A casa da mãe dele era das poucas que tinha telefone naquela época, e a pergunta do Fernando era lógica ou, pelo menos, bem-intencionada. No entanto, eu estava furioso. Olhava para a minha mãe esforçando-me por não a odiar com toda a minha alma. Subitamente, revelava-se-me como uma pessoa falsa. Sempre nos tinha dito que gostava muito de nós, mas quando se tentou matar nem sequer se lembrou de nós. Apeteceu-me que morresse ali mesmo, já que o desejava assim tanto, e disse-o ao Fernando. Ele, longe de me recriminar, repetiu-me que tudo correria bem, que não ia acontecer nada à minha mãe e que, mais tarde, se eu quisesse, podíamos falar com mais calma.

Corri pelo corredor até à rua com o cartão numa mão e a chave noutra. E foi então que aconteceu: mal um dos meus pés tocou na rua, o tempo deteve-se. E deteve-se mesmo. Fiquei congelado, os pés inertes no limiar da porta de minha casa, qual soldadinho de plástico em acção de guerra. Porém, não me sentia colado ao chão ou com as pernas metidas num bidão de alcatrão, ou uma coisa do género, não, nada disso. Nem sequer sentia os pés, as mãos ou a cabeça. A rua Magán parecia outra rua, distante, com um vento que sentia soprar de maneira irreal. Um vizinho passou diante de mim e julguei que ficasse admirado ao ver a estátua viva do filho do bobinador em posição de sair de casa, mas, em vez disso, ignorou-me completamente. Pensei que, se conseguisse cumprimentá-lo, me salvaria, mas não fui capaz. Tinha a cabeça a funcionar, e a mil à hora, mas não conseguia transformar os meus pensamentos em acções. Então, como se se tivessem virado contra mim todos os desejos que, instantes antes, tivera em relação à minha mãe, senti-me morrer, agrilhoado ao limiar da minha casa, sem forças para respirar.
Creio que a apenas um segundo da loucura fui salvo pelo Fernando e, a partir desse momento, ele converteu-se no meu anjo da guarda. Dali para a frente, nunca mais o voltei a chamar paneleiro, nem sequer à frente dos mais velhos.
— O que é que ainda estás aqui a fazer? — perguntou-me, e, pouco a pouco, senti os meus músculos a começarem a mexer-se — A tua mãe já está melhor, deixei-a com a tua avó, e vim ver se já tinhas chamado o médico.